Perfil: "A política é apaixonante"
Chávez irrompeu na política com um golpe de estado fracassado, mas quando se candidatou nunca perdeu umas eleições. Ao fim de 14 anos de poder, a mortalidade infantil caiu pela metade, o analfabetismo foi erradicado, o número de professores multiplicado por cinco e a Venezuela foi o país sul-americano que alcançou (junto com o Equador), entre 1996 e 2010, a maior redução da taxa de pobreza. Fonte: esquerda.net
Artigo | 6 Março, 2013 - 01:21 Hugo Rafael Chávez Frías, o 56º presidente da Venezuela, era o segundo de seis filhos de Hugo de los Reyes Chávez e de Elena Frías de Chávez, ambos professores. Hugo e o seu irmão mais velho foram viver com a avó paterna Rosa Inés a pedido do pai, ainda durante a infância. Aos 17 anos, ingressou na Academia Militar da Venezuela, graduando-se, em 1975, em Ciências e Artes Militares, ramo de Engenharia. Tinha quatro filhos, três do primeiro casamento e uma da segunda mulher. Entrada de rompante no cenário nacional Chávez entrou na política, onde sempre ganhou as eleições a que se candidatou, da forma paradoxal: liderando uma tentativa de derrubar o governo de Carlos Andrés Pérez através de um golpe de estado. Tinha 38 anos, e assistira, revoltado, à repressão do Exército ao “Caracazo”, uma revolta popular que ocorrera três anos antes. O golpe fracassou e Chávez aceitou render-se, mas pôs como condição fazê-lo diante das câmaras da TV. Assumiu toda a responsabilidade pela derrota, afirmando que se tratava de um movimento militar bolivariano e defendendo que o país precisava “mudar de rumo para um destino melhor”. Passou os dois anos seguintes na prisão, até ser amnistiado pelo presidente Rafael Caldera Rodríguez. Ao recuperar a liberdade, abandonou a vida militar para se dedicar à política. "Eu sou um político. A política é apaixonante", disse. Primeira vitória eleitoral Em 1997, fundou o Movimiento V República (MVR) e, nas eleições presidenciais de 6 de dezembro de 1998, apoiado por uma coligação de esquerda e centro-esquerda, o Polo Patriótico, organizada em torno do MVR, Chávez foi eleito com 56% dos votos. Percorrera o país numa carrinha Toyota Samurai, falando com o povo, invocando Simón Bolívar e prometendo acabar com a corrupção, democratizar o petróleo, exterminar a pobreza. Assembleia Constituinte Logo que tomou posse, em 2 de fevereiro de 1999, Chávez convocou um referendo para decidir a realização de uma Assembleia Nacional Constituinte. Em 25 de abril desse ano, 70% dos venezuelanos manifestaram-se a favor de se convocar uma Constituinte. E em julho de 1999, o Pólo Patriótico conquistou 120 dos 131 lugares. A nova constituição foi redigida e logo submetida a um plebiscito, onde foi aprovada por 71,21% dos eleitores. Segunda eleição De acordo com a nova ordem constitucional, realizaram-se eleições em presidenciais e legislativas em 30 de julho de 2000. Chávez foi reeleito presidente com 59,7% dos votos e o Pólo Patriótico conquistou a maioria dos lugares na Assembleia Nacional. Uma lei que ficou conhecida como Lei Habilitante, permitiu ao presidente governar por decreto durante o período de um ano e, nesse período, Chávez promulgou um total de 49 decretos, entre os quais a Lei de Hidrocarbonetos, que fixava a participação do Estado no setor petrolífero em 51%, e a Lei de Terras e Desenvolvimento Agrário, prevendo a expropriação de terras latifundiárias. Sobrevivente de um golpe Em abril de 2002, Chávez enfrentou uma greve convocada pela Confederação de Trabalhadores (CTV) contra a sua decisão de demitir os gestores da companhia estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA). Prevista para dois dias, a greve prolongou-se. Em 11 de abril, confrontos entre manifestantes a favor e contra o presidente provocaram 15 mortos e mais de cem feridos, e foram usados como pretexto para uma tentativa de golpe de Estado para derrubar Chávez. No dia 12 de abril, o general Lucas Rincón, chefe das Forças Armadas, anunciou que Chávez se tinha demitido, e o presidente da Fedecámaras, Pedro Carmona, assumiu a presidência da República. Mas Hugo Chávez conseguiu enviar uma mensagem dizendo: "No he renunciado al poder legítimo que el pueblo me dio. Por siempre Hugo Chávez". Militares leais ao presidente organizaram então um contragolpe e retomaram o Palácio Presidencial, libertando nas horas seguintes Chávez da prisão na ilha de La Orchila. Regressando a Caracas, foi recebido por uma multidão que gritava por ele. Mais tarde, acusaria os Estados Unidos de terem apoiado os golpistas. Consulta popular sobre a permanência de Chávez Em Novembro de 2003, a oposição recolheu assinaturas para realizar uma consulta sobre a permanência de Chávez no poder, consulta essa prevista pela nova Constituição. Mas o presidente venceu a consulta, em agosto de 2004, com 58,25% dos votos. A oposição alegou que ocorrera uma fraude, mas os observadores internacionais presentes durante o processo (entre os quais se encontravam o antigo primeiro-ministro português António Guterres e Jimmy Carter) consideraram que a consulta decorrera dentro da normalidade. Finalmente, com algum atraso, a vitória de Chávez foi reconhecida como legítima pelos Estados Unidos. Reeleição em 2006 O percurso triunfal de Chávez prosseguiria nas eleições presidenciais de 2006, ganhas com 62,9% dos votos, derrotando Manuel Rosales, que teve 36,9%. Pouco depois, Chávez anunciou que iria unir os 23 integrantes da sua coligação num só partido, o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). As eleições legislativas foram boicotadas pela oposição e Chávez recebeu poderes amplos para governar por 18 meses através de decretos-lei em 11 áreas do país, com uma nova Lei Habilitante. Derrota no plebiscito sobre a reforma da Constituição Em 2 de dezembro de 2007, Chávez provaria pela primeira vez o gosto da derrota numa consulta popular, quando a reforma da constituição da Venezuela, proposta por ele, foi submetida a plebiscito e a maioria do povo a rejeitou. O "não" venceu , com 51% contra 49%, e Chávez reconheceu a derrota. Doença e última vitória Nas eleições presidenciais de 7 de outubro de 2012, Chávez foi mais uma vez reeleito com 55,08%, mas nunca tomou posse. Em 2011, fora-lhe diagnosticado um cancro, que o levou à mesa de operações por quatro vezes. Não sobreviveu à última. Legado Vivendo quase exclusivamente dos rendimentos do petróleo, a Venezuela continua a ter um índice grande de pobreza. Mas o legado de Hugo Chávez marca sem dúvida uma rutura com os governos anteriores e os números são claros. A Venezuela dedica 43,2% do orçamento a políticas sociais, o que teve como resultado que a taxa de mortalidade infantil caísse pela metade. O analfabetismo foi erradicado, o número de professores multiplicado por cinco (de 65 mil a 350 mil). O país apresenta o maior coeficiente de Gini (que mede a desigualdade) da América Latina. Num relatório de janeiro de 2012, a Comissão Económica para América Latina e Caraíbas (Cepal, uma agência da ONU) estabelece que a Venezuela é o país sul-americano que alcançou (junto com o Equador), entre 1996 e 2010, a maior redução da taxa de pobreza. Todos estes dados explicam o resultado de uma sondagem do instituto norte-americano Gallup que aponta a Venezuela como a sexta nação “mais feliz do mundo”. Artigos relacionados:
 
 
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