Wikileaks: Envolvimento de papa com ditadura enfraquecia crítica aos Kirchner
Documento sobre o assunto foi elaborado pela embaixada norte-americana em Buenos Aires em outubro de 2007. Fonte: Opera Mundi
14/03/2013 - O envolvimento do então cardeal Jorge Mario Bergoglio com os crimes cometidos pela ditadura argentina enfraquecia as suas críticas sobre as decisões políticas e econômicas do governo Kirchner, na opinião da embaixada norte-americana em Buenos Aires. A revelação sobre o novo papa, que escolheu o nome Francisco para usar em seu pontificado, foi feita pelo site Wikileaks em 2011, com base em telegrama original datado de 11 de outubro de 2007. Poucos meses antes, em maio de 2007, o governo de Nestor Kirchner era muito criticado dentro da Argentina e o presidente não sabia se concorreria à reeleição ou se lançaria sua esposa, a então senadora Cristina Kirchner, como candidata. A ideia era esperar o máximo possível e só anunciar a candidatura em julho daquele ano. Greves de professores na província de Santa Cruz que causaram a renúncia do governador local em 9 de maio, um escândalo de corrupção envolvendo vários ministros e tensões públicas com a Igreja Católica eram alguns dos desafios dos Kirchner. Segundo telegrama da embaixada dos EUA vazado pelo Wikileaks, uma das vozes mais críticas ao governo era a do cardeal Bergoglio. As relações entre o governo Kirchner e a Igreja pioraram quando o ex-bispo Joaquín Pina impediu que Carlos Rovira, governador kirchnerista da província de Misiones, conseguisse uma mudança na lei aprovando a reeleição sucessiva. A proposta foi derrotada por mais de 13 pontos percentuais. Kirchner, à época, chegou a declarar que “Deus não tem partido” e, portanto, a igreja não deveria se meter na política. Bergoglio disse que a Igreja não deveria se envolver com a política de modo oficial, mas apoiou a campanha liderada por Pina. O então cardeal também expressou preocupação com o “enfraquecimento das instituições democráticas argentinas” e com a crescente concentração de poder na mão dos Kirchner. Durante a greve dos professores em Santa Cruz, um bispo agravou ainda mais a crise entre governo e Igreja ao dizer que os Kirchner tratavam como “inimigos” aqueles que pensavam diferente do governo. Relação com ditadura Nascido em 1936, Bergoglio tinha 40 anos quando os militares argentinos destituíram à força o governo de Isabel Perón e instauraram uma ditadura militar. O cardeal Bergoglio, assim como muitos religiosos com idade semelhante, é acusado de não ter trabalhado para evitar a morte de mais de 30 mil argentinos – muitos deles, militantes de esquerda – entre os anos de 1976 e 1983. Bergoglio teria falhado especialmente em não proteger as vidas de dois colegas da Ordem dos Jesuítas que eram opositores da ditadura argentina. Orlando Yorio e Francisco Jalics foram levados para a Escola Superior de Mecânica da Armada (ESMA) em 23 de maio de 1976, onde foram presos e torturados pelos órgãos de repressão do governo Jorge Videla, segundo o livro O silêncio, do jornalista Horacio Verbitsky.
 
 
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