Mais armadilhas do Banco Central Europeu para ajudar Merkel
O BCE publicou um estudo que diz que as famílias alemãs são mais pobres que as famílias da Europa do Sul. Neste artigo, Juan Torres López denuncia a armadilha do BCE, “ cujos resultados confundem a população e que são difundidos para ajudar a política reacionária da senhora Merkel e do seu governo”. Por Juan Torres López, catedrático de Economia Aplicada da Universidade de Málaga (Espanha). Conselho Científico de Attac-Espanha. Fonte: www.juantorreslopez.com
ARTIGO | 23 ABRIL, 2013 - Há uns dias publiquei um artigo mostrando como o presidente do Banco Central Europeu (BCE) apresentou aos líderes europeus uns dados, sobre a evolução da produtividade e os salários em diferentes países, que ou estavam manipulados ou manifestavam um desconhecimento tremendo de questões económicas básicas (As armadilhas de Draghi para baixar salários). Qualifiquei esse facto como uma armadilha porque dessa forma se confundia as pessoas para poder avançar propostas que só têm como fundamento a ideologia neoliberal de quem as propõe. Agora de novo há que denunciar outra publicação do BCE cujos resultados confundem a população e que são difundidos para ajudar a política reacionária da senhora Merkel e do seu governo, empenhados em justificar a sua guerra económica contra a Europa dizendo aos seus concidadãos que a negligência dos países do sul de Europa obriga a que as famílias alemãs, que seriam as mais pobres, paguem os seus excessos. Diversos meios de comunicação tão influentes como The Wall Street Journal, Financial Times ou Frankfurter Allgemeine fizeram eco nos últimos dias de um trabalho publicado pelo BCE na revista Statistics Paper (“The Eurosystem Household Finance and Consumption Survey, Results from the First Wave”) no qual se quantifica a riqueza das famílias dos países europeus mostrando que a das alemãs é menor que a dos outros países da periferia europeia. Os títulos desses meios de comunicação são significativos: “Ricos cipriotas, pobres alemães” Reiche Zyprer, arme Deutsche) no Frankfurter Allgemeine, “Os mais pobres da Europa? Olhem para o Norte” (Europe's Poorest? Look North) no The Wall Street Journal, ou “Os pobres alemães cansados de resgatar a zona euro” (Poor Germans tire of bailing out eurozone) no Financial Times. Mas esse estudo que serve para proclamar aos quatro ventos a injustiça que resulta de que sejam precisamente os alemães quem pague a dívida desses países com famílias mais ricas, tem truque. Como acabam de demonstrar os investigadores Paul de Grauwe e Juemey Ji num artigo publicado em Social Europe Journal (Are Germans Really Poorer Than Spaniards, Italians And Greeks?), dos dados que o BCE proporciona nesse estudo não se podem extrair semelhantes conclusões porque se referem à riqueza mediana das famílias estudadas e não à riqueza média. Para quem não esteja habituado a estes conceitos, mostrarei o seu diferente significado com um simples exemplo. Suponhamos que se trata de comparar a riqueza das famílias de dois países A e B, que a riqueza das cinco famílias do país A é 12,13,14,15,16 e a das famílias do país B de 7,8,9,10,71. A mediana é o valor da variável que tem por baixo e por cima o mesmo número de observações. Por tanto, no país A a riqueza mediana seria 14 e no país B seria 9. Pois bem, vejamos por que é muito incorreto dizer que as famílias do país A são mais ricas que as do B, ou que o país A é mais rico, por essa razão que o B. Se em lugar de tomar a mediana tomarmos a média (que é a média das observações, isto é o resultado da divisão do seu valor total pelo número de famílias, neste caso) resulta que a riqueza média das famílias do país A é de 14, enquanto a das famílias do país B é 21. O que ocorreu é lógico: a mediana “ocultou” a grande riqueza que se acumula, sobretudo, na quinta família do país B. Este simples exemplo permite comprovar, portanto, que o relevante não é a mediana (neste caso da riqueza) mas sim ter em conta a diferença que há entre a mediana e a média porque essa diferença é que indica o grau de desigualdade que existe entre as variáveis observadas. No exemplo vê-se claramente que o país B que aparece como mais pobre, se a riqueza se medir pela mediana, é na realidade bastante mais rico. No seu comentário ao estudo do BCE, de Grauwe e Ji mostram que se se toma em conta a desigualdade os resultados a que se chega são outros. Assim, comprovam que a diferença entre a riqueza de 20% das famílias mais ricas e a das 20% mais pobres é de 149 para 1 na Alemanha, uma desigualdade entre dez e quinze vezes maior que a que se regista em Espanha, Itália, Grécia ou Portugal, por exemplo. Por tanto, não se pode afirmar, como se está a fazer, que as famílias alemãs como um todo sejam mais pobres que as dos demais países. Ao dizer isto, oculta-se que o que passa na Alemanha é que a riqueza familiar está bem mais concentrada que nos demais países e que ali uma parte pequena das famílias, as muito ricas, ficam com a maior parte da riqueza. Além disso, de Grauwe e Ji indicam que analisar só a riqueza das famílias para tirar conclusões sobre a injustiça de um país resgatar outro é também muito inadequado. Afirmam com razão que teria que se ter em conta, para além da riqueza das famílias, a que têm as empresas e o governo. E aí resulta também que o que ocorre na Alemanha é que a parte da riqueza total que corresponde às famílias, em relação às empresas e ao setor público, é mais reduzida que noutros países europeus. Se contemplar a riqueza no seu conjunto, e não só a familiar, por exemplo através do stock de capital per capita, resulta que a que há na Alemanha é quase dupla da que corresponde a países como Espanha, Grécia, Portugal, Irlanda ou inclusive Itália. Em resumo, de novo o BCE faz armadilhas difundindo uma visão parcial da realidade que é utilizada pelos grandes meios de comunicação para apoiar a estratégia do governo alemão orientada para favorecer cada vez mais as suas grandes empresas e bancos. O BCE é um instrumento dos grandes grupos de poder empresarial e financeiro europeu cujo melhor representante político é o atual governo alemão e nesta ocasião demonstra-o ajudando a que se oculte que o que ocorre na Alemanha não é que o país no seu conjunto, ou a totalidade das suas famílias, esteja a empobrecer por culpa dos países do sul. É outra coisa: lá há cada vez mais famílias alemãs que empobrecem mas porque a riqueza se concentra em cada vez menos ricos alemães. Ricos alemães que também o são graças ao esbulho que as suas empresas e bancos, com a inestimável ajuda do BCE, estão a produzir nos países do sul. Merkel e o seu governo não são só o inimigo número um da Europa mas também da imensa maioria dos alemães. Artículo publicado en Público.es a17 de abril de 2013 e disponível no blogue Ganas de escribir
 
 
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