O despertar oficial para o Pico Petrolífero
por Chris Nelder: "Quanto principiei a escrever profissionalmente acerca do Pico Petrolífero, em 2006, o assunto era geralmente considerado uma teoria esdrúxula. A noção de que a produção de petróleo poderia atingir o pico cerca de 2012 (mais ou menos) era tomada a sério apenas por uns poucos analistas, os quais eram considerados extremamente pessimistas".

O despertar oficial para o Pico Petrolífero

Parte 1: O fim da negação do Pico Petrolífero

por Chris Nelder

Quanto principiei a escrever profissionalmente acerca do Pico Petrolífero, em 2006, o assunto era geralmente considerado uma teoria esdrúxula. A noção de que a produção de petróleo poderia atingir o pico cerca de 2012 (mais ou menos) era tomada a sério apenas por uns poucos analistas, os quais eram considerados extremamente pessimistas.

As previsões oficiais não tomavam conhecimento disso, fosse como fosse. Todos estavam confiantes em que a oferta de petróleo continuaria a crescer firmemente para 130 milhões de barris por dia (Mb/d) e até para além disso, a preços que seriam considerados espantosamente baratos pelos padrões de hoje. As companhias petrolíferas raramente mencionavam o Pico Petrolífero e, quando o faziam, era num tom casual e desdenhoso.

Mas à medida que o tempo avançava, os argumentos cornucopianos caíam um por um. Os meus leitores antigos viram a história desdobrar-se, mas em benefício dos novos leitores apresento aqui um sumário rápido.

As previsões ficaram cada vez mais pessimistas quando se tornou aparente que a oferta de petróleo convencional havia atingido o pico no fim de 2004. Mesmo quando a maior alta da história do preço do petróleo se verificou de 2005 a 2008, a produção de petróleo bruto permaneceu constante e insensível.

A OPEP reduziu alguns dos seus planos de desenvolvimento quando os custos dispararam. A produção não OPEP não só fracassou em proporcionar qualquer aumento real como começou a declinar. As previsões foram revistas para baixo.

O etanol produzido a partir do milho disparou e fracassou, pois revelou-se a sua impraticabilidade em termos de energia líquida que os analistas sérios sempre haviam previsto. O etanol era também suspeito de aumentar a pressão sobre os preços dos alimentos no momento mais inoportuno.

A produção não convencional de xistos petrolíferos e areias betuminosas fracassou quanto ao crescimento esperado, pois os produtores afastavam-se assustados com os altos custos e a baixa produção dos projectos.

A Agência Internacional de Energia (IEA) acabou finalmente por incluir o esgotamento de campos maduros na sua análise e tornou-se cada vez mais estridente nas suas advertências acerca da oferta futura.

Uns poucos actuais e antigos executivos da indústria petrolífera começaram a fazer declarações públicas acerca das perspectivas decrescentes quanto a nova oferta e uns poucos deles chegaram a reconhecer que seria difícil aumentar a produção muito para além dos níveis correntes.

Preços altos do petróleo demonstraram-se então intoleráveis para uma economia tensa pelas explosões das bolhas nos sectores imobiliário e financeiro.

Ainda assim, o reconhecimento oficial da ameaça do Pico Petrolífero permaneceu silencioso, velado por advertências acerca do "investimento adequado" e afirmações satisfeitas de que a procura em breve atingiria o pico, evitando qualquer escassez de oferta.

Tudo isso parece ter mudado no mês passado. Um súbito dilúvio de relatórios e reuniões cimeiras sugere que a indústria petrolífera e responsáveis pela energia estão agora a tomar o Pico Petrolífero realmente a sério.

Força-tarefa britânica sobre Pico Petrolífero: Escassez em 2015

A primeira bomba foi lançada realmente em 10 de Fevereiro, quando a Força-tarefa do Reino Unido sobre Pico Petrolífero e Segurança Energética emitiu um relatório chamado "O esmagamento petrolífero: Um apelo a despertar para a economia britânica" ("The Oil Crunch: A wake-up call for the UK economy"). Apenas o mencionei na altura, mas era uma severa advertência de que "escassez de petróleo, insegurança da oferta e volatilidade do preços potencialmente desestabilizariam a actividade económica, política e social por volta de 2015".

Isto só se tornou notícia porque Sir Richard Branson, pessoalmente, endossou-a. Mas o facto de a força-tarefa ter incluído executivos de topo e peritos em energia do Reino Unido deu-lhe bastante peso, de modo que circulou amplamente na imprensa.

O governo britânico, inclusive o ministro da Energia Lord Hunt, respondeu efectuando em 22 de Março uma reunião cimeira a portas fechadas com a força-tarefa . Como informou o Guardian, o governo tencionava desenvolver um plano de acção para enfrentar um pico a curto prazo e "acalmar temores crescentes sobre o Pico Petrolífero".

Jeremy Leggett, analista veterano do Pico Petrolífero e membro da força-tarefa, explicou: "O governo afastou-se da posição da BP – 'restam 40 anos de oferta, o mecanismo do preço funciona, não precisam preocupar-se' – para 'oh Deus!". Ele instou a assembleia a avaliar adequadamente os riscos do Pico Petrolífero e a começar a preparar imediatamente para o fim da globalização e para uma era de escassez de petróleo no Ocidente.

Segundo informações dos que compareceram, a cimeira produziu algumas conclusões importantes:

  • O Pico Petrolífero está aqui, ou bastante próximo.
  • Os preços terão de ser mais altos pois a procura ultrapassa a oferta.
  • Governos serão forçados a intervir para manter níveis críticos de abastecimento de petróleo e limitar a volatilidade.
  • Medidas de racionamento podem ser inevitáveis.
  • A electrificação do transporte deve ser prosseguida a fim de reduzir a procura.
  • As comunidades precisarão de trabalhar rapidamente para reorganizar-se a andar a pé ao invés da condução, produzir alimento e energia localmente ao invés de importar e tentar na generalidade reduzir as suas necessidades de petróleo.

Contudo, a noção de que o Pico Petrolífero significará o fim do crescimento económico, como tenho argumentado , caiu em ouvidos moucos. Ainda assim, o próprio facto de o governo se ter envolvido com a comunidade do Pico Petrolífero e formado um grupo parlamentar para estudar a questão proporciona uma ténue esperança de que, pelo menos no Reino Unido, teremos alguma consciência acerca da questão e uma ideia do que fazer quando nos depararmos com o despenhadeiro do Pico Petrolífero.

Relatório do Kuwait: Pico em 2014

A seguir houve um relatório que emergiu em 12 de Março. Três autores do College of Engineering and Petroleum da Universidade do Kuwait aplicaram matemática avançada a dados de reservas e de produção dos 47 principais países produtores utilizando um modelo de Hubbert multi-ciclo, o qual demonstrou um ajustamento muito melhor aos dados históricos do que o ciclo simples das análises da Curva de Hubbert.

O modelo estima a produção final de petróleo bruto do mundo em 2140 mil milhões de barris, restando 1161 mil milhões de barris para produzir no fim de 2005. Ele prevê que a produção mundial atingiria o pico em 2014 em torno do 79 Mb/d. A taxa anual de esgotamento das reservas mundiais foi estimada estar em torno dos 2,1%.

Os resultados não foram realmente novos para os "piquistas", pois eles correspondiam bastante bem aos modelos de Colin Campbell, Jean Laherrère e outros analistas que desde 1995 nos tem advertido acerca do pico. O fez este relatório interessante foi em primeiro lugar que foi do Kuwait e em segundo lugar por ter trazido um novo nível de rigor matemático ao estudo.

O modelo indicava que a produção não OPEP atingiu o pico em 2006 com 39,6 Mb/d. Prevê que a produção OPEP atingirá o pico em 2016 com 53 Mb/da, acima dos 31 Mb/d de 2005, com a maior parte do aumento vindo do Iraque, Kuwait e dos Emirados Árabes Unidos. A seguir, espera que a produção da OPEP decline para 29 Mb/d em 2050.

Relatório de Oxford: Reservas exageradas em um terço

No dia 22 de Março explodiu outra bomba na imprensa quando o ex-cientista chefe britânico David King e investigadores da Universidade de Oxford divulgaram um documento a afirmar que as reservas mundiais de petróleo haviam sido "exageradas em mais de um terço", principalmente pela OPEP.

A sua "análise objectiva" mostrava que as reservas de petróleo convencional situam-se a apenas 850-900 mil milhões de barris – não os 1.150-1.360 mil milhões de barris que são oficialmente apregoadas pelos produtores de petróleo e aceites pela politicamente influenciada IEA .

Eles antecipavam que a procura poderia ultrapassar a oferta em 2014-2015.

Numa declaração que soava como um eco directo do que analistas do Pico Petrolífero como eu têm estado a dizer durante anos, o co-autor Dr. Oliver Inderwildi observava: "A crença de que combustíveis alternativos tais como os biocombustíveis poderiam mitigar a escassez de oferta de petróleo e finalmente substituir os combustíveis fósseis é uma promessa oca. Ao invés de confiar nestas soluções milagrosas, temos de dar melhor utilização aos recursos remanescentes através da melhoria da eficiência".

Mais uma vez, isto dificilmente é uma revelação. Pormenorizei em 2007 os acréscimos de "reservas políticas" de produtores da OPEP, quando estava a escrever Profit from the Peak. Mas o facto de ter sido reconhecido amplamente na imprensa foi uma mudança assinalável em relação ao passado.

O futuro dos combustíveis estará em torno da eficiência e da energia alternativa. Este processo – quer seja percebido ou não – já está a caminho. Centenas de milhares de milhões serão obtidos quando um grupo de companhias seleccionadas lentamente erradicar o desperdício desenfreado do nosso sistema de distribuição de electricidade, o qual tem sido estimado por analista em mais de 60%.

A ConocoPhillips desiste do crescimento

Em 25 de Março, o presidente da ConocoPhillips, Jim Mulva, admitiu que a busca de novas reservas de petróleo simplesmente não compensará. Os recursos remanescentes tornaram-se demasiado marginais e demasiado caros e a competição por eles tornou-se demasiado intensa.

Ao invés de continuar a insistir na busca do crescimento com maiores e mais bem financiados actores, a Conoco decidiu vender US$10 mil milhões dos seus activos ao longo dos próximos dois anos, todos eles na categoria marginal, e concentrar-se na produção dos seus activos mais importantes.

As receitas serão utilizadas para comprar de volta as suas acções, reduzir a sua dívida e aumentar dividendos – exactamente o que a rival ExxonMobil tem estado a fazer durante os últimos cinco anos ou mais.

Quando concluí em Profit from the Peak que as majors do petróleo estavam a gastar muito mais dinheiro a comprar de volta as suas acções do que a investir em nova exploração porque as reservas estavam a ficar demasiado caras e arriscadas, veteranos da [Wall] Street receberam a ideia com extremo cepticismo.

Agora isto é um facto claro. Um estudo da Universidade Rice divulgado em Julho de 2008 descobriu que em 2007 as cinco maiores companhias internacionais de petróleo haviam gasto cerca de 55% dos seus lucros na recompra de acções e em dividendos, mas apenas cerca de 6% em novas explorações e na produção. "Poderíamos nós gastar US$20 mil milhões ou US$25 mil milhões [na exploração]? Absolutamente", disse na altura o porta-voz da Conoco, Gary Russell. "Poderíamos nós fazer isto efectivamente, de um modo que proporcionasse o valor derradeiro para os nossos accionistas? Provavelmente não".

Aqueles de nós que têm estado a observar a tendência durante anos receberam os recentes comentários da Conoco com pouco mais do que um encolher de ombros, mas ele chamou a atenção da atrasada imprensa "de referência".

Na minha próxima coluna em Energy and Capital, daqui a duas semanas, veremos como o Departamento da Energia está agora a considerar a possibilidade de um declínio na produção mundial de combustíveis líquidos em 2015 e escolheremos umas poucas pistas mais do International Energy Forum efectuado esta semana. Até a próxima.

O original encontra-se em http://www.energyandcapital.com/articles/the-end-of-peak-oil-denial/1111 . Tradução de JF.
 
 
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