Grécia está em toda parte
Os investidores privados exigem juros cada vez mais altos para rolar a dívida pública do país. As taxas chegaram a 20% ao ano – um escândalo para os padrões da eurozona. Parte dos aplicadores está simplesmente desfazendo-se de suas aplicações. Leia artigos sobre a crise da Grécia e a explosão da Dívida Pública no Brasil pela alta dos juros.

Existe um consenso sobre o controle de metas de inflação através do aumento da taxas de juros? Mas este consenso, por certo, não é com o povo brasileiro, e sim dos grandes meios de comunicação atrelados aos interesses financeiros, a elite e  pessoas mal informadas. A maravilhosa "estabilidade" do modelo econômico esta sendo sustentanda por uma dívida que drena os recursos do pais como um aspirador.   Senão, vejamos. 

A dívida  interna do  Brasil , que montava R$ 892,4 bilhões quando Lula assumiu o governo em 2003, atingiu em 2009 o montante de R$ 1,40 trilhão de reais e, segundo limites definidos pelo próprio governo, e  fechou 2010 em R$ 1,80 trilhão de reais, o dobro. Crescimento de mais de 94% em oito anos de governo.

Para 2010, segundo Plano Nacional de Financiamento do Tesouro Nacional, a necessidade bruta de financiamento para a dívida interna será de R$ 359,7 bilhões (12% do PIB), sendo R$ 280,0 bilhões para amortização do principal vencível em 2010 e R$ 79,7 bilhões somente para pagamento dos juros (economistas independentes estimam que a conta de juros passará de R$ 160,0 bilhões em 2010). Ou seja, mais uma vez, o governo, além de não amortizar um centavo da dívida  principal, também não vai pagar os juros. Vai ter que rolar o principal e juros. E a dívida vai aumentar.

Enqunto na Grécia, a população está revoltada com a situação do custo social pelo pagamento de 20% de juros ao ano para rolar a Dívida, aqui o governo chegou a oferecer juros  de 18,56% ao ano  para rolar parte da dívida interna, enquanto a taxa Selic estava em 13,75%. E o povo, foi para a rua? Claro que não, aqui não é a Grécia, mas adivinhem quem vai paga a conta?

Vejam  artigos sobre a crise grega e a Dívida Brasileira .

Marcos H. Guimarães

Vice-presidente do Instituto Reage Brasil

A Grécia está em toda parte



Por Antonio Martins

Texto para a revista Retrato do Brasil 35 (já nas bancas) | Atualizado em 4/5 em Outras Palavras

Cenas que foram comuns nas crises cambiais da América Latina contagiaram com grande rapidez, nos últimos dias, a Europa e o euro – segunda moeda mais importante na hierarquia do sistema financeiro mundial. Depois de meses de estudos e hesitações, os governos da União Europeia fracassaram, na semana passada, ao tentar costurar um pacote de socorro à Grécia. Os investidores privados exigem juros cada vez mais altos para rolar a dívida pública do país. As taxas chegaram a 20% ao ano – um escândalo para os padrões da eurozona. Parte dos aplicadores está simplesmente desfazendo-se de suas aplicações.


Sem socorro, Atenas quebrará, provocando novas perdas e colocando outros países em dificuldades. Estima-se agora que sejam necessários 120 bilhões de euro, ao longo dos três próximos anos, para evitar um calote (“default”) — mas governos como o da Alemanha resistem a agir. As pedras mais vulneráveis do dominó são Portugal e Espanha, cujas dívidas foram rebaixadas, semana passada, pelas agências de avaliação de risco. Mas também Itália, Irlanda e o próprio Reino Unido acumularam dívidas de difícil amortização.

Num esforço para cativar os mercados, os Estados europeus procuram mostrar “austeridade”. Uma onda de greves e protestos (retratados na imagem do post) espalhou-se pelas cidades gregas, em resposta ao “ajuste fiscal” anunciado em 2 de maio pelo governo. Entre as medidas, incluem-se redução de salários de servidores públicos e das aposentadorias, aumento de impostos e eliminação de direitos trabalhistas (“flexibilização dos mercados de trabalho”). Estudos da revista The Economist projetam um quadro sombrio. Além do drama social, as medidas adotadas provocarão queda de 5% na produção de bens e serviços, até 2014. O pagamento de juros aos credores pulará dos atuais 5% do PIB, ao ano, para 8,4%.

Por que as turbulências financeiras globais iniciadas em 2007 reemergem agora, na forma de uma crise das dívidas públicas? Quais as alternativas?

A causa imediata do turbulhão enfrentado por Grécia, Portugal e Espanha assemelha-se à dos dramas vividos pelos “mercados emergentes” há algum tempo. Os Estados endividam-se lançando, nos mercados financeiros, títulos que rendem juros. Ao perceberem um aumento expressivo da dívida, os compradores dos papéis passam a exigir taxas maiores – ou porque enxergam risco de calote, ou para tirar proveito da debilidade do devedor.

Este movimento agrava o peso da dívida. Em março, a Grécia pagava juros de 9,75% ao ano, contra 3% na Alemanha e 1% nos Estados Unidos. De tempos em tempos, a espiral provoca uma ameaça de colapso, só solucionada pela intervenção de uma entidade financeira externa — que impõe ao Estado em dificuldades políticas “de austeridade”.

As causas da crise, a revanche dos mercados
e a alternativa das moratórias soberanas

Mas há, além da aparência, um formidável agravante. Brasil, México ou Argentina, vítimas de ataques especulativos entre 1994 e 2003, são mercados de segunda linha, na hierarquia dos sistema financeiro internacional. A Europa Oriental, que viveu o mesmo fenômeno há cerca de dois anos, também. Agora, a crise chega a países que compõem a área de uma das moedas situadas no centro do sistema. “A Grécia está em toda a parte”, registrou em março o economista Michael Krätke, da Universidade de Amsterdam.

Por que até os mercados mais poderosos agora são suscetíveis à pressão dos grandes credores? Como a União Europeia, conhecida até há pouco pelo rigor com que impunha o controle do déficit público aos estados-membros, perdeu controle sobre ele? O gráfico abaixo, construído por The Economist a partir de um estudo recente do FMI, oferece as primeiras pistas – e ajuda a entender por que o tema é crucial.




A imagem mostra que a dívida dos países mais ricos do mundo disparou, a partir de 2007. Nas duas décadas anteriores, ela cresceu lentamente, passando do equivalente a 60% do PIB para 75%. Agora, bastarem três anos para que saltasse a 100% do PIB.

A explicação é quase óbvia. A ação dos Estados foi o fator central para evitar que a crise financeira mundial iniciada em 2007 resultasse numa depressão semelhante à dos anos 1930. Em todo o mundo, os cofres públicos foram abertos para despejar rios de dinheiro sobre o sistema financeiro, e evitar que entrasse em colapso. O socorro a bancos, corretoras, seguradoras e outras instituições consumiu vários trilhões de dólares. Além disso, os Estados promoveram o resgate de empresas industriais falidas (como a GM). Concederam vultosos incentivos fiscais para reanimar, por meio do consumo, setores paralisados de suas economias. Ampliaram o desembolso de recursos com programas sociais como o seguro-desemprego e a renda da cidadania.

A crise humilhou os mitos que alardeavam a “auto-regulação das finanças”. Mas não foi suficiente, ao menos até agora, para estabelecer controles mais rígidos sobre os mercados financeiros. Por isso, seus defensores ensaiam uma espécie de revanche ideológica e política.

A recusa da União Europeia a socorrer a Grécia é um sinal. O mesmo Krätke ressalta que o BCE não libera recursos baratos ao Tesouro grego, mas mantém abertas as linhas de crédito usadas por bancos privados para emprestar a Atenas – cobrando taxas de juros exorbitantes…

Além disso, voltaram a se erguer, em todo o mundo, as vozes que propõem vasto corte nas despesas dos Estados ligadas à proteção social e ao desenvolvimento. Na mesma edição em que aponta o salto das dívidas públicas, The Economist ecoa o “remédio” sugerido pelo FMI: uma espécie de mega-choque fical, em escala planetária. Na repetição de um discurso bastante conhecido no Brasil, o Fundo foca o resultado “primário” dos Tesouros – aquele que deixa de lado o pagamento de juros… Nos países ricos, a ideia é passar do déficit atual (que, na média, equivale a 4,3% do PIB), para um superávit primário de 3,7%, até 2020.

A cantilena é antiga; mas o risco de ser adotada, real. Na Europa, a chanceler alemã, Angela Merkel, está propondo abertamente que os países incapazes de reduzir o déficit público sejam submetidos a sanções progressivas, podendo chegar à expulsão da área do euro. Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama acaba de constituir uma “Comissão Nacional da Responsabilidade Fiscal e Reforma”. Liderada por dois parlamentares ligados ao sistema financeiro (um de cada partido…), ela deverá ter, como um dos alvos, restrições aos programas de seguridade social.

É a única saída? Evidentemente, não: há alternativas tanto de curto prazo, pragmáticas, quanto envolvendo um debate mais profundo sobre os gastos dos Estados. Na Europa, Michael Krätke sugere, entre outras medidas, que os governos europeus articulem empréstimos solidários aos países em dificuldades. Além de evitar ataques aos direitos sociais, explica ele, a medida puniria os especuladores que estão se aproveitando da fraqueza de alguns países, forçando-os a aceitar taxas de juros mais baixas e interrompendo o contágio.

Ao mesmo tempo, a dramaticidade da crise está suscitando o debate de soluções mais heterodoxas até entre economistas menos acostumados a isso. Vale a pena acompanhar, por exemplo, a coluna mantida, no site norte-americano Huffington Post, por Simon Johnson, professor de Economia no Massachussets Institute of Technologies (MIT) e ex-diretor do Departamento de Pesquisa do FMI (2007-2008). Além de apontar, sempre com riqueza de dados, a necessidade de uma ampla reforma nos mercados financeiros, ele tem sugerido que países como a Grécia considerem, com muita seriedade, hipóteses como a moratória soberana de suas dívidas.

Fonte: http://www.outraspalavras.net/?p=1205

 

DESPRIVATIZAR O GOVERNO

A decisão do Banco Central não surpreendeu, apesar de revoltante.

A própria Ata da última reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central já havia deixado claro que nesta reunião de abril a taxa Selic seria elevada, mais uma vez.

Há semanas, assistimos a uma torrente de informações que nos dão conta de um ritmo de crescimento da atividade econômica, em diferentes setores da indústria e do comércio, interpretado como um sinal de aquecimento da economia acima do desejável. Essa é a visão amplamente difundida, como uma verdade absoluta, pelos analistas e comentaristas das grandes redes de comunicação, com o suporte de economistas afinados com a política defendida pelo próprio Banco Central.

Alerta-se que a pressão de demanda ditada por esse ritmo de crescimento acabaria por pressionar o nível de preços, produzindo pressão inflacionária. Essa pressão faria com que a projeção da inflação futura, para esse ano, estivesse fugindo do centro da meta de inflação, definido para 2010 em 4,5%.

Alegava-se, antes do anúncio da elevação da taxa básica de juros de 8,75% para 9,5% ao ano, que havia uma "ampla convergência de opiniões para o entendimento consensual sobre a necessidade da elevação da taxa de juros".

Com tanta tecnicalidade e com tanto consenso, parece ser essa a única interpretação existente para o atual momento por que passa a economia, especialmente para a imensa massa da população, naturalmente muito distante dos detalhes de temas como esse.

Porém, esse tipo de consenso é apenas uma figura de retórica para se reforçar a ordem dominante.

Primeiramente, caberia destrinchar um pouco a visão pretensamente técnica da questão.

O atual ritmo de expansão da economia, na maior parte dos setores, procura ainda recuperar o nível de produção do momento anterior à crise. A própria pressão sobre os preços de produtos de determinados setores pode ser interpretada apenas como uma conseqüência temporária dessa reativação econômica, tendendo a se acomodar em relativo curto espaço de tempo. Não há nenhum dado consistente de elevação do nível de renda da população que nos permita projetar pressões indesejáveis de demanda, dado evidentemente a capacidade instalada de produção e as suas projeções de expansão.

A política monetária desenvolvida pelo Banco Central se baseia no chamado modelo de metas inflacionárias. Nesse modelo, a partir de uma determinada estimativa do produto potencial da economia, dado um ritmo projetado de expansão da economia, define-se uma faixa conveniente de variação para a estimativa de inflação futura. O objetivo da política monetária é, assim, procurar manipular os seus instrumentos, de modo a garantir que a taxa de inflação venha a se comportar dentro dos limites da faixa pré-estabelecida.

Para se aferir o ritmo da atividade da economia, assim como especialmente as expectativas inflacionárias, o Banco Central procura ouvir o próprio mercado, como forma de melhor sintonizar o manuseio dos seus instrumentos, sempre na busca de se alcançar o objetivo maior da política defendida, que é a contenção da taxa de inflação dentro dos limites desejados.

A idéia de um produto potencial da economia previamente estabelecido deve ser relativizada, em função de variáveis que são mutáveis, a partir inclusive da própria execução da política monetária. Dentre essas variáveis, destaca-se a própria taxa de juros, o preço do dinheiro, fundamental para um maior ou menor estímulo aos investimentos, motor para a expansão da capacidade de produção de qualquer economia.

Baixas taxas de juros, por exemplo, podem alterar por completo as condições de expansão da atividade econômica e o produto possível de ser atingido, em função do comportamento da taxa de investimento, que tende a reagir positivamente frente a uma reduzida taxa de juros.

Ao contrário, taxas elevadas de juros inibem o investimento, ao mesmo tempo em que pode, ao estimular a entrada de recursos externos na economia - conforme acontece na presente administração da política econômica do governo - incentivar as importações e inibir exportações, em decorrência da valorização do Real, provocada pela liquidez externa.

Mas, o que aparentemente é apenas técnica, quando examinada à luz da prática, se mostra inteiramente revestida de sentido político, onde atores muito bem definidos acabam por dar as cartas do jogo.

Quando se menciona que o Banco Central procura ouvir o próprio mercado, a referência são agentes do mercado financeiro, analistas e técnicos de instituições financeiras diretamente interessados nas decisões a serem tomadas pela autoridade monetária, que é - ou deveria sê-lo - o próprio Banco Central. A minha dúvida está relacionada a essa evidente dependência que passa a existir entre o órgão que deveria regular e fiscalizar o mercado financeiro, e os interesses das instituições justamente a serem reguladas e fiscalizadas.

Produto potencial, estimativas do comportamento de preços e da inflação projetada, assim como as expectativas em relação às taxas de juros ficam por conta e risco - e especialmente interesses - de instituições que vivem de ganhar dinheiro com as informações, e decisões, que deveriam ser de competência exclusiva e soberana do governo federal.

Em tempos onde aparentemente o Banco Central age de forma independente, a bandeira de ordem mais importante, nesse momento, muito bem poderia ser a da defesa da independência deste Banco Central, em relação às instituições que o controlam, na prática, que é o sistema privado financeiro.

A bandeira a ser levantada poderia ser a da desprivatização do Banco Central.

Contudo, se tudo isso acontece, a responsabilidade é unicamente do próprio governo.

O atual funcionamento e política do Banco Central é uma decorrência direta da opção de governabilidade adotada por Lula, antes mesmo de sua posse, e que transferiu a responsabilidade do núcleo da política econômica aos interesses dominantes do setor financeiro.

A justificativa do Banco Central é que poderemos ter uma elevação da inflação neste ano e o remédio não pode ser outro que não o aumento da taxa de juros. Mas tudo se esclarece quando lembramos que quem opina sobre "expectativas inflacionárias" são agentes do mercado financeiro, assim como quem sugere o remédio são eles mesmos: os bancos e demais instituições do "mercado". Em suma, está tudo em casa, com o Banco Central patrocinando a festa de quem vende crédito e dinheiro.

Mas, o problema não para por aí. Nessa semana, em que mais uma vez o reajuste dos aposentados é colocado na berlinda, como uma ameaça às contas públicas, ninguém exige que o governo ou o seu banco central apontem a "fonte de recursos" para se cobrir o rombo que essa medida, de se elevar os juros, provoca no Orçamento da União.

Esta elevação da taxa Selic para 9,5%, em meio a taxas de juros baixíssimas ou até mesmo negativas pelo mundo afora, irá impactar ainda mais a pesada despesa com juros e amortizações que, apenas no ano passado, consumiu 35% dos recursos orçamentários da União.

O presidente Lula, que exigiu dos parlamentares que defendem um reajuste maior aos aposentados a fonte de recursos para o custeio do aumento de despesas que a essa medida geraria, não teve o mesmo comportamento frente à decisão do Banco Central.

Sabem por quê? Por que essa conta é paga justamente com os recursos que deveriam ser aplicados na previdência, na saúde, na educação, nos transportes públicos ou na habitação popular.

É por isso, leitor, que todos esses serviços voltados à população andam de mal a pior, com um péssimo atendimento à população.

E, por isso, a bandeira mais apropriada para o momento é a desprivatização não somente do Banco Central, mas, principalmente, do próprio governo.

28/04/2010

Paulo Passarinho é economista e presidente do CORECON-RJ

As "lições da Grécia" que eles tiram

por Juan Torres López [*]

O governador do Banco de Espanha voltou a intervir na vida pública, fazendo gala de que é uma das grandes figuras da política espanhola e não um simples técnico como ele e os seus colegas dizem de si próprios. E fê-lo também, mais uma vez, defendendo as posições patronais e dos grandes bancos e grupos financeiros a que serve. Mostrando igualmente que nem ele nem a instituição que governa são independentes como diz o seu estatuto.

Agora afirma que há que "extrair lições da Grécia". Uma recomendação muito sensata que todos deveríamos seguir se não fosse porque as lições que ele extrai são do mesmo tipo das que extrai de qualquer circunstância que seja, chova ou faça sol.

O governador não diz que é preciso tirar lições da política dos governos conservadores que levaram a Grécia à ruína. Uma política que é a mesma que a sua instituição defende.

O governador não recomenda que retiremos lições da especulação que engordou às custas da economia grega nos últimos meses através de fundos especulativos que não procuram saneá-la nem dar-lhe mais estabilidade e sim ganhar milhares de milhões ainda que seja ao custo de tudo explodir.

O governador não tem que aprender nem recomenda aos demais que aprendam a controlar os bancos para que não voltem a provocar a crise que obrigou os governos de meio mundo, entre eles o grego, a terem de endividar-se até as sobrancelhas enriquecendo assim a banca privada que provocou a crise.

O governador não recomenda que retiremos lições do mau funcionamento da zona euro, da falta de coordenação política ou da ausência de instituições e mecanismos que permitam fazer frente aos desequilíbrios que, como no caso grego, se podem verificar.

O governador não tira conclusões da falta de controle dos bancos que roubaram o povo grego, ou da cumplicidade do Banco Central Europeu com os banqueiros que enriqueceram ocultando os números do défice grego.

O governador tão pouco extrai lições da cegueira dos supervisores que como ele não apreciaram o que ia acontecer apesar de serem tão prontos a autoproclamarem-se depositários da verdade e de terem à sua disposição meios privilegiados para acompanhar a conjuntura económica.

O governador não tira lições da borbulha imobiliária e financeira que banco centrais como o seu deixaram que se expandisse.

O governador não nos diz para tirarmos lições da deriva regressiva das políticas fiscais dos últimos anos.

O governador não extrai lições do incremento da desigualdade dos últimos tempos, nem o preocupa que a poupança se tenha estado a dirigir para a especulação.

O governador não extrai lições do que estão a fazer os bancos com o dinheiro público – em lugar de utilizá-lo para financiar a economia usam-no simplesmente para melhorar os seus resultados e repartir dividendos multimilionários aos seus accionistas.

O governador não extrai lições do que acontece quando os mercados se debilitam pela precariedade no emprego e pelos baixos salários.

O governador não tira conclusões do facto de que os bancos multiplicam artificialmente a dívida graças ao sistema de reservas fraccionárias que produz instabilidade permanente e as crises financeiras recorrentes.

O governador não tem nada a aprender do facto evidente de que a plena liberdade de movimentos de capital está gerando a etapa de maior e mais daninha instabilidade financeira da história.

O governador não extrai lições da opacidade em que actuam os bancos e os grandes financeiros e de a sua própria instituições ocultar a situação real dos bancos espanhóis, enganando a cidadania.

O governador não extrai lições dos problemas colocados pela cada vez maior concentração do poder financeiro e da banca e dispõe-se a entregar numa bandeja aos banqueiros espanhóis parte do mercado que até agora era controlada pelas caixas económicas.

O governador olha para outro lado e não é capaz de extrair lição alguma do que implica não dispor de banca pública e deixar o financiamento imprescindível da vida económica nas mãos dos bancos privados.

Não. De nada disto extrai lição alguma o governador.

As lições que segundo ele é preciso extrair do caso grego é que na Espanha devem-se rebaixar os direitos sociais reduzindo a despesa pública, e os direitos e salários dos trabalhadores reformando as leis que regulam o mercado de trabalho.

Essa é a única lição que segundo o governador do Banco de Espanha, assim como segundo o patronato e os banqueiros, os espanhóis devem aprender.

Uma lição falsa com a qual consumam um vergonhoso engano dos cidadãos porque ocultam à cidadania que o se passou ou o que se passe com as contas do Estado ou no mercado de trabalho não é causa e sim efeito do ocorrido no sector financeiro e no mercado de bens e que portanto é nestes espaços que se deve actuar. Concretamente, reduzindo os direitos, os privilégios e o poder dos financeiros, dos banqueiros e do grande patronato e não dos trabalhadores.

Conseguirão o que se propõem se a cidadania não se mobiliza os enfrenta com decisão. Mas eu não perco a esperança de que assim seja e de que, na Grécia, aqui e em toda a parte, algum dia se ponha em evidência o latrocínio que os banqueiros estão a levar a cabo e a cumplicidade vergonhosa destes funcionários que em vez de servir do Estado e os cidadãos trabalham ao seu serviço.

[*] Professor Catedrático da Universidade de Sevilha, coordenador de www.altereconomia.org

O original encontra-se em hl33.dinaserver.com/hosting/juantorreslopez.com

 

 
 
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