Da bancocracia na Europa
Já ninguém duvida a partir de agora: são os pobres que vão pagar a conta vertiginosa da crise financeira. Conta tanto mais salgada pelo facto de a dita crise estar longe de terminada. Os ricos, os verdadeiros, estão desde já abrigados graças ao oportuno salvamento dos bancos que gerem os seus haveres sumarentos. Artigo do francês Yann Fievet.

O teatro europeu da crise é particularmente edificante sob todos os aspectos. Se bem que a crise do euro não seja senão o prolongamento da crise mais ampla das finanças mundializadas, ela revela-nos que a solidariedade das nações e dos povos europeus com que nos enchem as orelhas há cinquenta anos não era desde há muito senão uma palavra. Não é a Grécia que ameaça o euro para o euro fez a Grécia cair tão baixo que talvez não se recupere. Já é tempo de declarar algumas verdades, de convencermo-nos definitivamente que os economistas de conivência e os dirigentes políticos optaram piedosamente pelo campo dos bem-nascidos e dos bandidos.

Dos bem-nascidos? Diz-se que possivelmente os 850 maiores miliardários do mundo são mais ricos que a África com os seus 850 milhões de habitantes. Dos bandidos? Maurice Allais, Prémio Nobel de Ciências Económicas 1988, escreveu um dia que "na sua essência, a criação monetária ex nihilo que os bancos praticam é semelhante, não hesito em dizê-lo, para que as pessoas compreendam bem o que está em jogo aqui, à fabricação de moeda por falsários, tão justamente reprimida pela lei". Números vertiginosos? Enquanto o New Deal de Roosevelt em 1933 representava hoje 50 mil milhões de dólares, e o Plano Marshall 100 mil milhões de dólares, o plano europeu adoptado a 10 de Maio último atinge por si 750 mil milhões de euros e contudo não representa senão pouco mais de 10% da dívida bruto da zona euro, de 7000 mil milhões de euros.

E a vertigem acentua-se quando ao alçar voo dos números acrescenta-se a soberba incerteza do devir da economia europeia. Sobre a soma de 750 mil milhões de euros, em que a intervenção do FMI é considerada como complementar à intervenção europeia, mais da metade, ou seja, 440 mil milhões, são considerados como "mobilizáveis", isto é, eles pura e simplesmente não existem hoje. O plano de salvamento da Espanha, o único que foi estimado pelo Natixis [NT] , exigiria entre 400 e 500 mil milhões de euros. Assim, se se acrescentar a Itália e a Irlanda... O medo ainda aumenta quando se sabe que não são mais os produtores de riquezas materiais, capazes de alimentar, alojar, melhorar a existência das populações, mas sim os especuladores, através dos bancos e dos seus produtos financeiros cada vez mais arriscados, que dirigem a economia. Eles vampirizam a economia real no seu tudo – e doravante também os recursos públicos dos Estados. Esta reversão delirante dos papeis conduz forçosamente à espoliação dos povos, pelo desemprego, pela miséria, pelos recuos civilizacionais...

A crise não é tão pouco uma crise do défice orçamental da Grécia, mas exactamente uma crise dos bancos europeus. Assim, a operação de salvamento da Grécia não lhe é destinada, mas aproveita aos bancos europeus. Trata-se de um verdadeiro assalto, ao crédito da especulação e ao débito da dívida pública, que foi perpetrado. Assiste-se estupefacto a uma permutação de credor; os contribuintes europeus substituem-se aos banqueiros e recuperam assim a sua posição. O resto da Europa para emprestar para "salvar" os bancos que emprestaram à Grécia que não pode reembolsar! O economista irlandês David McWilliams nota até que ponto passámos da democracia à "bancocracia". Por intermédio do Estado, com efeito, as riquezas são transferidas dos "não-iniciados", o povo, para os "iniciados" do sistema bancário. Ele acrescenta que não nos devemos enganar: isto que foi apresentado como o salvamento de um Estado fazendo apelo ao suposto sentimento de solidariedade europeia, não nada menos que uma transferência directa de dinheiro do bolso dos cidadãos para o dos credores estrangeiros de bancos franceses e alemães. Aqui está a receita da divisão e da instabilidade.

O Prémio Nobel Joseph Stiglitz diz a propósito da crise financeira de 2008-2009 nos Estados Unidos que os bancos conseguiram mutualizar as suas perdas com os contribuintes mas que privatizam os seus benefícios em proveito único dos seus accionistas. A Europa ajuda hoje a fazer o mesmo. O Estado pura e simplesmente não está mais no seu papel de defensor do bem comum pertencente a todos os cidadãos. Ao voar (!) em socorro dos rufiões e dos ricaços, o Estado tornou-se privado. Chegou o reino tirânico das novas feudalidades.

[NT] Natixis: banco francês constituído em 2006 pela fusão dos grupos bancários cooperativos Groupe Banque Populaire e Groupe Caisse d'Epargne. Ver
Banco privado publica "Uma leitura marxista da crise"(sic).


O original encontra-se em http://www.legrandsoir.info/De-la-bancocratie-en-Europe.html

 
 
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